Paulo       Cunha

Co-Fundador e ex-CEO of ShiftForward, Chief Product Officer na Velocidi, e 

Co-Fundador da Founders Founders

Paulo Cunha Velocidi

Photo by Joana Leitão

 

Behind Business - Como é que chegaste onde chegaste?

Paulo - Eu acho que já tinha em mim o bichinho de empreendedor desde muito cedo, desde quando eu tinha 15/16 anos. Quando se tem esse espírito, já nessa idade queres andar a fazer coisas, nem que seja arranjar um emprego de verão para juntar dinheiro. Naquela altura o que me aliciava era mesmo fazer coisas tecnológicas e em 1997 lancei o primeiro site de venda de roupa online em Portugal para vender camisas por medida, e que ainda hoje existe.

Continuaste com os teus próprios projetos?

Bem, eu deixei isso de parte e fui trabalhar como toda a gente. Tirei um curso e fui para Londres. Durante esse processo, consegui entrar na área de que gostava, não estando apenas ligado ao desenvolvimento e engenharia de software mas também já ligado à área de negócio, em particular na área de marketing e de dados, o que me me despertou muita curiosidade. Uma das empresas onde trabalhei era uma startup alemã, entre 2006 a 2009, e por isso apanhei o comboio e a maluqueira do que é trabalhar numa startup. Adorei! Achei fascinante. Isto deu-me uma grande bagagem, não como líder mas sobre como o que é passar por aquelas fases, cheias de altos e baixos, e conheci gente incrível de vários países - Espanha, Itália, França, Inglaterra, Alemanha. Gostei e disse para mim próprio que seria para repetir, eventualmente, noutra circunstância.

Porque voltaste?

Naquela altura queria um sítio menos cinzento, com mais sol. Por isso pensei em várias cidades,  como Barcelona, Berlim, Porto… e o Porto ganhou, mais por uma questão de proximidade às pessoas: família, amigos, etc. Continuei a trabalhar para empresas europeias a ajudá-las a desenhar soluções tecnológicas para marketing.  Como estava a ser relativamente bem pago, dava-me ao luxo de trabalhar 2 dias e os outros aproveitava-os. Como o negócio foi crescendo e como vi que havia mais gente a pedir desenvolvimento de software, resolvi montar uma empresa. Em paralelo, resolvemos passar também a desenvolver os nossos próprios produtos - produtos que poderiam escalar e crescer a empresa de uma forma rápida. Começámos a pensar em soluções que tivessem valor tecnológico.

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"Inspiram-me as pessoas que pegam no seu tempo - que eu acho que é sempre o recurso mais escasso de que dispomos, e conseguem colocá-lo em função da sociedade. As pessoas que gostam e que impulsionam o voluntariado,  apoiando os outros, são as que mais me inspiram porque estão a pegar na sua moeda mais valiosa e da-la gratuitamente em prol da sociedade."

Porque te referes no plural?

É sempre uma equipa, nunca fazes isto de inovar e empreender sozinho, há sempre as pessoas que vão contigo na viagem, ainda mais quando se trata de desenvolver software inovador, em que não é das 9 às 5. No início, o escritório era na sala lá de casa e as conversas nesse ambiente acabam naturalmente por ser sobre “o que vamos fazer como empresa”, “como é que o vamos fazer”,  “que negócio vamos criar, e por aí adiante.

Achas que, no ínicio, é melhor existir uma relação de amizade entre os co-founders para garantir o sucesso da empresa? Ou será melhor apenas existir uma relação puramente de negócio?

Eu acho que ajuda a começar porque há um grau de confiança que te ajuda a desbloquear e ajuda a falar abertamente. Por outro lado acho que é complicado em algumas situações. Tens de conseguir separar o que é negócio e o que é amizade e, como em tudo na vida, há sempre o lado bom e o lado mau. Acho que isso tem de ser sempre visto caso a caso e, dito isto, há alturas em que se calhar, para certos negócios, faz sentido fazer de certa maneira e outros em que faz sentido outro tipo de abordagem.  Depende muito negócio e das pessoas, logo, não há regras.

O que é mais difícil de gerir: o dinheiro, as pessoas ou ao tempo?

Eu acho que o tempo é mais difícil. Apesar de viverem numa bolha, as empresas tecnológicas acham que gerir o dinheiro é o mais complicado. Eu acho que não é assim. Acredito que gerir o tempo é mais complicado. Tu consegues sempre arranjar formas de ir buscar mais dinheiro; tens de conseguir convencer o investidor a financiar-te, é certo, mas tu não consegues comprar mais tempo. E quando eu digo isto não é no sentido filosófico da coisa - se a tua startup estiver à procura de financiamento para crescer e só o faz depois de cinco anos, por exemplo - vais ter de contar uma história muito bem contada para explicares porque é que só agora é que estás à procura do primeiro investimento para crescer. Uma startup com cinco anos não está elegível para vários fundos europeus, começa logo aí. Qualquer investidor vai achar estranho. A não ser que já não seja startup, que já tenha uma estrutura e clientes, mas à partida uma startup ainda está à procura de um modelo de negócio escalável. O tempo, aqui, tem muita importância, é um recurso muito escasso. No dia em que começas a empresa o relógio começa a contar, quase como um relógio biológico da startup.

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Então o que estás a dizer é que é fácil chegar a investidores?

É fácil chegar a investidores, sim, sem dúvida.

Mesmo em Portugal?

Claro que sim, e eu não acho que seja em Portugal na perspectiva em que tenham de ser necessariamente investidores portugueses mas mesmo estando  em Portugal tens acesso ao mercado. A história tem de estar bem contada. O investidor procura sempre não perder uma boa oportunidade de negócio, seja ela onde for. Portanto, Portugal está, neste aspecto, em pé de igualdade em relação a qualquer outro país europeu. Em relação à legislação, impostos, e em relação ao movimento de capital, é pacífico quando se fala num país da união europeia. Se for fora da União Europeia é que já será mais complicado. Portugal tem muitas vantagens que são facilmente vendidas a qualquer investidor. Na Founders Founders temos vários casos de investidores que nos vêm bater à porta para perguntar se conhecemos oportunidades para lhes recomendarmos.

Como é que tu defines sucesso?

Sucesso individual é tu estares bem contigo próprio e gostares daquilo que estás a fazer.  Se quiseres ir para o lado financeiro, sucesso é ter o suficiente para que isso não seja uma preocupação e para te poderes focar naquilo que gostas de fazer. Mas não é preciso ser empreendedor para conseguir isso. De todo. Ser empreendedor é possivelmente optar pelo caminho mais difícil para lá chegar, pelo menos é o mais atribulado mas, se calhar, o mais interessante.  Do ponto de vista da empresa, o sucesso é muito simples: é ser financeiramente sustentável, mas sustentável também os outros níveis; ser sustentável eticamente, tem que ser sustentável na forma como trata as pessoas, como se tratam os clientes, etc. Só assim é que a sustentabilidade financeira tem sentido.

Se transpusermos isso para o contexto de um país asiático, no qual a cultura budista prevalece, fazer negócio de forma pouco ética irá trazer mau karma. Isso afetar-te-à a longo prazo.

Concordo totalmente com isso apesar de não acreditar muito na questão do karma.  Nós podemos sempre fazer mais dinheiro… a questão depois a seguir é, como é que isso vai ajudar-te e à sociedade à tua volta. Se calhar, teres mais dinheiro já não vai fazer muita diferença mas para os outros vai fazer imensa. Não tratar bem as pessoas será sempre um tiro no pé; não sabes quando é que serás tu essa pessoa, aquela que será maltratada e portanto acredito mais nesse karma, no sentido em que mais cedo ou mais tarde, se não tratares bem das pessoas, haverá reciprocidade e ficarás isolado. E é merecido.

Quem te inspira?

Muitas pessoas me inspiram de maneiras diferentes.  O meu pai, por exemplo, em questões como a resiliência, negócio e da sua capacidade de andar sempre para a frente. A nível de conhecimento de alguma área, inspira-me o Steve Blank, na área do marketing e vendas. Acho fenomenal a forma como ele consegue pôr coisas estão complexas em formas tão simples. Inspira-me toda a gente que com pouco conseguem fazer muito. Inspiram-me as pessoas que pegam no seu tempo - que eu acho que é sempre o recurso mais escasso de que dispomos, e conseguem colocá-lo em função da sociedade. As pessoas que gostam e que impulsionam o voluntariado,  apoiando os outros, são as que mais me inspiram porque estão a pegar na sua moeda mais valiosa e da-la gratuitamente em prol da sociedade. Essas são as mais inspiradoras.

Há algum livro que tu aconselharias a quem quer começar nessa onda do empreendedorismo?

Sim, “Crossing the Chasm”, de Geoffrey Moore. Acho que toda a gente que está a pensar em fazer alguma coisa, tem de ler este livro.

Qual foi o teu insucesso que tu mais aprecias agora olhando para trás?

Houve uma situação na minha vida que eu acho que foi mais complicada, na altura em que eu estava na faculdade. Eu queria estar na faculdade e trabalhar ao mesmo tempo. Como consequência da falta de tempo, no segundo ano da faculdade, acho que nem fiz uma cadeira. Fui para Londres com a ideia de que lá seria mais fácil conciliar as duas coisas - e de facto é, porque a abertura para se poder trabalhar ao mesmo tempo do estudo é maior. No primeiro ano não consegui entrar onde queria. Não entrei e acabei por nem sequer começar o curso naquele período que era suposto começar.  Comecei logo aí a pensar “Será que alguma vez isto vai funcionar?” Tinha já estado dois anos na faculdade no Porto, agora mais 1 ano... Mas no ano seguinte voltei a candidatar-me e entrei. No entanto, estava sempre com aquela coisa de “Isto nunca mais acaba, eu acho que não vou acabar isto.” Estava a ser complicado não só o facto de trabalhar e estudar ao mesmo tempo mas também o facto da liberdade que a própria cidade e a faculdade nos permite ter. Em Portugal estava habituado a ter aulas com horários muito certinhos, e lá não, tinha liberdade para escolher fazer o que quisesse. Podia ir ou não às aulas… e eu não ia.

Fez-te pensar...


Eu acho que me fez pensar...quando estava no último ano houve alturas em que não acreditava que eu ia acabar. Fazia o filme todo na minha cabeça, de que que não ia conseguir acabar. Portanto, os insucessos foram todos acontecendo: desistir do meu curso de Engenharia no Porto, depois entrar e não entrar…. Foram etapas em que eu estava muito angustiado e não conseguia andar para a frente. No dia em que recebi a última nota do último exame do último ano…  foi um dos maiores alívios da minha vida. Pensei para mim próprio “Acabou, já posso fazer coisas.” Sentia um peso grande, o facto de ter ido para Londres, o facto de ter convencido os meus pais de que ia mudar de cidade e que ia para Londres para fazer esse curso… Era muita coisa ao mesmo tempo e estava a sentir esse peso, e pensava que se não acabasse o curso, o que é que eu estava ali a fazer?


Cresceste com isso?


Sem dúvida, cresci imenso.

Imagina que estamos no futuro e temos dois dispositivos de teleporte, para viagens bidirecionais.  Onde é que os vais colocar?

Eu colocaria um no Porto e outro em Londres.  Eu acho que iria ficar desiludido porque… Londres para mim são as pessoas, como no Porto são as pessoas. No entanto, ao contrário do Porto, em Londres as pessoas movimenta-se muito porque é uma cidade em que o mais normal é vir de fora, ficar uns anos e depois vai-se embora. Algumas das pessoas muito importantes para mim continuam lá mas também há muita gente que já não está, tal como eu. Já estão a fazer a sua vida no seu país de origem ou num outro portanto... Cada um tem a sua razão para estar num sítio onde está. De qualquer forma, continuaria a escolher Londres porque continua a ser aquele sítio de encontro. Espero que as alterações legislativas por causa do Brexit não afetem a nossa mobilidade… mas acho que vão mudar. Se não mudar, vai continuar a ser aquele sítio incrível.

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